Se género não existe, a cultura, tradições e dinheiro também não

género e cultura

As manchetes e bocas do mundo falam de ideologia de género como se de uma coisa nova se tratasse. Instagrammers, Tiktokers e Twitters, logo se apressam a expressar a sua agnotologia, disfarçada de opinião ou liberdade de expressão, disfarçada de discurso de ódio. De facto, têm razão. Ideologia de género é algo novo, identidade de género é que sempre existiu. Assistimos ao nascimento de uma nova profissão: Agnotologistas da Ideologia de Género. Mas vamos ao que interessa, para perceberes por que raio afirmamos que, se género não existe, a cultura, tradições e dinheiro também não:

 

O que é a Agnotologia?

De forma simples, a agnotologia é a produção social de ignorância que tem por base o apagamento (invisibilidade), esquecimento ou distorção de certas formas de conhecimento (culturais, científicas, académicas, etc.), frequentemente por razões religiosas, políticas ou económicas.

      Basicamente, falarmos sobre coisas que não conhecemos, que não experienciámos, que não estudámos, que não investigámos, alegando que conhecemos, que experienciamos ou que lemos um parágrafo de um estudo, é sermos agnotologistas. Falarmos com base no que ouvimos dizer, no que nos vão contando, nas notícias falsas, nos sensacionalismos dos media, no que está na moda, no que dá para fazer humor, no que dá para espalhar o terror, é sermos agnotologistas.

      Não foi assim há tanto tempo, que as mulheres tentavam obter os mesmos direitos que os homens, colocando-se em posições profissionais e políticas que estavam reservadas a estes. Na altura, propagandistas das teorias anti-feministas, patriarcais ou machistas, tentaram de tudo para acabar com aquilo que as mulheres estavam a tentar alcançar: justiça, equidade, igualdade.

Podiam ler-se cartazes, notícias ou conversas de café:                       

Se a mulher for votar, quem é que fica com as crianças?

O lugar da mulher não é no voto, é em casa.

 

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Algumas pessoas, fizeram-no por ignorância, outras por medo: sentiam o seu lugar de privilégio ameaçado. Espalhavam as suas ideologias de valores tradicionais e patriarcais, e argumentavam com a natureza biológica contra as mulheres. 

Eis que agora, século XXI, surge a chamada “ideologia de género” para que agnotologistas possam ganhar mais uns followers, fãs ou seguidores.

O que é a Ideologia de género?

             A palavra ideologia vem da combinação de “Idea” que significa aparência ou ideal, e “Logos” que significa estudo. Portanto, o estudo da aparência, ou o estudo do ideal. Há quem argumente ainda que ideologia é uma ilusão criada por um sistema dominante para continuar no poder. Uma ideologia é um sistema de aparências sustentadas por um grupo social dominanteque reflete e defende interesses (morais, religiosos, políticos ou económicos).

             Portanto, falar em ideologia de género, seria falar sobre uma aparência, um ideal, ou ainda, sobre um sistema de aparências de género, sustentadas por um grupo social dominante que defende interesses morais, religiosos, políticos e económicos.

            Ora, se como alegam, a ideologia de género anda a ser espalhada por aí, pelos movimentos LGBTI, não te deixes enganar, quem a espalha são os “Anti”. Os movimentos Anti-género, anti-feministas, anti-LGBTI ou anti-tudo aquilo que venha a pôr em causa a “normalidade” da sociedade patriarcal, sexista, machista, cisheteronormativa. O grupo social dominante não é o movimento LGBTQI, logo não é este que propaga uma ideologia, muito menos sobre a aparência de género. O movimento LGBTQI consciencializa, entre outras coisas, para as questões da identidade de género, que são coisas bem diferentes

             Os movimentos anti-género ou anti-LGBTQI são os que falam sobre a ideologia de género. Alegam que se anda a tentar convencer as pessoas de que género existe, e que há mais que dois. Na nossa perspetiva, é o mesmo que dizer que andam por aí movimentos a espalhar a sua “ideologia do dinheiro”, a fazerem querer que o dinheiro existe, e que há várias formas de dinheiro. 

          Vamos lá perceber: o dinheiro existe, certo? Todas as pessoas sabem que sim. Deviam também saber, que tal como agora o dinheiro existe, seja a moeda física, seja o bitcoin, o dinheiro é uma criação da sociedade, é algo que foi criado, para servir um propósito. E ninguém vive sem ele. Hoje, o dinheiro ainda é um conceito que podemos ver ou tocar. Talvez um dia, o dinheiro seja um conceito totalmente virtual, não físico, subjetivo.

              Se consegues aceitar que o dinheiro existe, e que foi a humanidade que o criou, porque é tão difícil entender que género existe, e que foi a humanidade que o criou? 

   Não te censuramos, uma vez que levaste uma vida inteira a aprender que o que importava era o sexo (genital) da pessoa. Não te foi permitido aprender que noutras partes do mundo o género sempre existiu.

            O termo ideologia de género havia já sido usado em estudos feministas e de género no século XIX e XX. Hoje, continua a ser usado como arma na guerra cultural e social a que assistimos. É usada com destreza, por pessoas que usam a sua posição de poder para legitimarem o seu discurso, e influenciarem as mentes de quem facilmente se deixa levar pelo sensacionalismo. Tem vindo a ser fortemente utilizado, não por pessoas cuja identidade de género está constantemente ameaçada, mas por aquelas cuja identidade é aprovada.

 

O que é a Identidade de género?

 

Esta é a forma como cada pessoa pensa ou sente sobre si mesma, em relação ao seu género. É algo que acontece naturalmente no seu desenvolvimento. O género é o conjunto de comportamentos, atributos, ou papéis socialmente associados às características típicas do que é ser do sexo fêmea ou macho. Ou seja, porque nascemos com determinado sexo (entenda-se genital), é suposto comportarmo-nos de determinada forma, termos determinados atributos (cabelo, pilosidade, voz, etc.) e representarmos determinados papéis.

O género varia não só consoante a sociedade, como o período histórico, a cultura, o contexto político, bem como é influenciado por condicionantes permitidas ou proibidas, consoante se seja macho ou fêmea. Dizer que este não existe é o mesmo que recusar conceitos como cultura, tradição, ou dinheiro. Todos estes foram construídos socialmente. 

Há pessoas que questionam o seu género, há outras que nunca o fizeram, nem nunca o vão fazer. E está tudo bem. Acredita, ninguém se dá ao trabalho de o questionar só porque quer. Dá bastante trabalho, é cansativo, pode ficar-se sem casa, sem família, sem trabalho ou até mesmo perder-se a vida, só porque se existe e se é diferente. E principalmente, porque pessoas agnotologistas continuam a espalhar o ódio, o medo, a dúvida e a descrença da beleza da diversidade humana.

 

Porque é importante que não sejas agnotologista da ideologia de género

          Quer acredites ou não que a bitcoin existe, isso não te impede de continuares a acreditar que estás melhor a trocar batatas e cebolas com a vizinhança. Não tens é de vir para a vizinhança seguinte, dizer que o bitcoin não existe, que quer acabar com o dinheiro no mundo, ou que está a tentar ensinar às crianças que trocar batatas e cebolas é anormal.

        Tal como, quer acredites ou não que o género existe, isso não te impede de continuares a acreditar que sexo e género são a mesma coisa. Não tens é de vir para as redes sociais ou grupos informais, dizer que o género não existe, que os movimentos LGBTQI querem acabar com os homens e mulheres, ou que estão a tentar influenciar as crianças a questionar a sua identidade de género.   

       Porque todas as crianças, jovens e pessoas adultas merecem viver em paz, em liberdade, autênticas, de acordo com a sua identidade, sem medo de serem quem são, sem medo de serem agredidas, violentadas ou mortas, deixa de ser agnotologista da ideologia de género.

           As empresas e organizações que realmente desejam que a guerra do género no mundo acabe, devem focar-se em formações que consciencializem as pessoas colaboradoras para o respeito da diversidade, permitindo que desconstruam estereótipos nefastos relacionados com a diversidade sexual e de género.

 

 

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